O ASSALTO

Já faz tempo. Era a tarde de um sábado movimentado na cidade. Naquela noite aconteceria o Baile da Primavera, uma das principais promoções do maior clube local. Não se falava outra coisa e àquela hora o mulherio estava todo concentrado nas tarefas de praxe dessas ocasiões.
Tia Tantan saiu de casa apressada, pois tinha certeza de que o salão de cabeleireiro que costumava freqüentar devia estar lotado. Ela era carinhosamente assim chamada pelos amigos e pelos numerosos sobrinhos, de sangue ou apenas de coração, devido à alegria que transmitia e à sua enorme capacidade de fazer trapalhadas.
Quando chegou na tranqüila rua do salão, teve dificuldade para arranjar uma vaga para o seu fusquinha. Tão logo conseguiu estacionar, partiu rapidamente para lá, juntando-se ao grupo de mulheres que lá estava se embelezando e colocando a fofoca em dia, para também dar um toque especial nas suas madeixas.
Algumas horas depois, já noite, a cabeleireira liberou Tia Tantan. O salão já estava quase vazio. Das clientes, só tinha ficado lá a Dona Bené, porque ainda não havia completado sua revisão geral. Dona Bené era uma professora aposentada, casada com o presidente do clube onde aconteceria o baile. Tinha fama de ser mal-humorada e criadora de casos, mas naquele dia estava muito amável, pois afinal estava se sentindo a primeira dama da sociedade.
Tia Tantan, que sempre teve a sensação de estar atrasada para alguma coisa que nem ela mesma conseguia identificar, saiu apressada para o carro. Tentou abrí-lo várias vezes, mas a chave teimava em não obedecê-la. Como não podia perder muito tempo nessas tentativas, resolveu então forçar o vidro da porta do lado do motorista. Quando conseguiu baixar um pouco o vidro, esticou o braço para dentro do fusquinha até sua mão alcançar a maçaneta, e assim abriu a porta. Viu-se em seguida diante de outro problema. Por um motivo que ela não sabia explicar, a chave também não funcionava na ignição. Para enxergar melhor o que estava fazendo, acendeu os faróis do carro. Fez novas tentativas para que ele funcionasse, e nada. De repente, pelo espelho retrovisor, percebeu um adesivo de escola de engenharia colado no vidro traseiro, que positivamente não estava lá quando ela chegou ao salão. Numa fração de segundo percorreu com os olhos todo o interior do carro e logo descobriu que no banco de trás havia umas sacolas que também não eram suas. Olhou para frente e, com a ajuda dos faróis acesos, pôde ver o seu fusca estacionado uns vinte metros à frente, exatamente no local onde o deixara.
Sentiu um frio na espinha. Num instante percebeu que arrombara o carro de alguém. Provavelmente, o de Dona Bené. Sua memória também trouxe à tona instantaneamente um fato que acontecera tempos atrás: com essa mesma chave, certo dia estava tentando abrir um fusquinha, que imaginava ser o seu, quando um rapaz se aproximou e disse:
- A senhora não quer usar esta chave? E lhe deu uma outra chave de fusca.
Tia Tantan fez uma tentativa com a chave emprestada, e a porta logo abriu.
- Pois é, disse o rapaz. Este carro é meu.
Ela quase desabou.
Agora, sentindo-se reincidente, tremia e suava. Sua primeira reação foi sair dali o mais rápido possível. Tentou levantar o vidro da porta, mas este não queria subir de jeito nenhum. Com o auxílio de uma das mãos e acionando a manivela com a outra, acabou conseguindo fechá-lo. Saiu então apressadamente em direção ao seu fusca. No meio do percurso notou que a rua estava muito clara. Instintivamente, olhou para trás e quase desmaiou. Tinha deixado os faróis do carro acesos. Por um instante pensou o que fazer: Ir embora logo ou voltar e apagá-los? Decidiu voltar, mas para poder desligar os faróis foi obrigada a novamente arrombar o fusquinha e, depois, fechar o vidro no peito e na raça.
Feita essa nova operação, correu para casa. Ao chegar, entrou gritando de tal forma que quase matou de susto Pacheco, o seu marido. Queria falar, mas as frases saiam meio sem nexo. Depois de beber uns dois copos d´água e de se acalmar um pouco, conseguiu contar a sua história.
Pacheco, que era um sujeito quadrado e que gostava de tudo certinho, a censurou duramente por não ter voltado ao salão para verificar se o fusquinha era mesmo de Dona Bené e, se realmente fosse, ter combinado com ela que pagaria o vidro, além de pedir desculpa pelo ocorrido. Salientou, porém, que ainda havia um jeito. As duas certamente iam se encontrar no baile e aí Tia Tantan poderia se redimir. Insistiu muito nessa recomendação.
Ao chegarem ao baile, Pacheco continuava de cara fechada. Tia Tantan, que tinha o seu lado de psicóloga, logo entendeu que a noite estaria perdida se não atendesse o desejo dele. Na primeira oportunidade que teve, disse que ia ao toalete. No caminho, parou na mesa de Dona Bené.
De sua mesa, Pacheco a viu cumprimentar Dona Bené e o marido. Só não podia ouvir a conversa. Dona Bené comentou com Tia Tantan que a cidade estava ficando cada vez mais perigosa. Não se tinha mais tranqüilidade.
- Imagina que hoje, lá no salão, tentaram arrombar o meu carro. Graças a Deus não chegaram a roubar nada, mas estragaram um vidro.
Tia Tantan, com as pernas bambas, mas tentando aparentar estar apenas surpresa, só conseguiu dizer:
- É mesmo?
Encerrou a conversa o mais rápido que conseguiu e voltou para a sua mesa.
Pacheco estava ansioso para saber o resultado daquele encontro. Tia Tantan fez um carinho na sua mão e lhe disse:
- Está tudo esclarecido, pode ficar tranqüilo. Ela não quer nem que a gente pague o conserto do vidro.
Rapidamente Pacheco foi recuperando o bom humor. Tirara um peso da consciência, além de sentir que seus conselhos tinham dado um bom resultado. Pouco depois, todo meloso sussurrou ao ouvido de Tia Tantan:
- Vamos dançar? A música está ótima...