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FIFI: A HISTÓRIA DE UMA CONQUISTA EM TREZE CAPÍTULOS

Fifi

Já fazia alguns meses que tia Tantan estava muito deprimida. Não se conformava com a morte do Mike, um poodle que viu nascer, filho da Natasha, e que tratava como se fosse gente. Tinha acompanhado o seu nascimento e se afeiçoara a ele como se fosse um membro da família. Sentia-se culpada pela perda, e nada do que ouvia melhorava seu estado de espírito. Até que, num certo dia, ela teve o primeiro contato com a Fifi. Fifi era também uma poodle, uma coisinha fofa, de olhos tristes e pelo macio, rabinho tosado como todo bom pedigree manda. Tia Tantan estava subindo os degraus da portaria do prédio onde ela morava, quando a viu em companhia de um menino. Naquele instante, ela teve a certeza que aquela cachorrinha ainda seria sua.

Daquele momento em diante sua vida ganhou uma nova motivação. Já havia criado o seu filho, ainda não tinha netos, mas tinha muito amor para dar. E esse amor foi direcionado para a Fifi.  Dirigiu seus esforços para conseguir ficar com a Fifi, ao mesmo tempo em que procurava dar vazão aos seus sentimentos, informando através de e-mails as suas amigas sobre a aventura em que se envolvera.

A seqüência de e-mails aqui transcrita dá conta da emoção que tomou conta da vida da tia Tantan ao longo de cerca de dois meses.

FIFI - Primeira parte

1º e-mail (06/06/02):
Queridas amigas,
Deus é muito espirituoso. Imaginem o que ele armou para mim, hoje. Desço para levar os meus sogros, a minha cunhada e o meu sobrinho até a portaria do prédio, quando me deparo com um garoto que estava com a sua cadelinha presa a uma coleira. Ao vê-la, senti que ela não estava bem. O pelo estava todo embolado, sujo e cheio de chicletes, os olhinhos cheios de remela. Vocês podem imaginar? Peguei-a no colo e vi que estava puro osso, magra, magra, magra... Conversei com o menino, chamado João Ricardo, e constatei que ela era uma sofredora. O menino tinha um distúrbio. Era hiperativo. A empregada, que estava junto dele, disse que eu nem imaginava o que ele fazia com ela. Estava mancando por causa de um chute que ele havia lhe dado. Se o menino não tivesse um problema, eu tinha dado nele, mas peguei a Fifi no colo e disse que ia dar um banho nela e escová-la. Ele nem ligou. Então, eu subi com ela e aí foi o céu. Escovei, beijei, lavei, sequei, penteei. Ela ficou linda como o Mike. Vocês podem acreditar, eu juro.
Então, foi aí que eu pensei: será que Deus está armando uma peça para mim? Não deu outra coisa. A mãe do João Ricardo chegou para apanhá-la e me perguntou se eu queria ficar com ela, pois ele nem ligava para ela, tanto que ela estava pensando em dá-la. Ficou de ver com o João Ricardo se ele ainda ia querer a Fifi.
Agora, me digam: isso não é coisa de Deus?... Eu não saí para procurar. Ela veio na minha porta. Não é incrível? Um dia eu rezei e pedi uma cadelinha abandonada para Deus. Acho que ele vai me atender. Não estou nem acreditando. Vamos esperar para ver, não é? Beijos para vocês.
Tantan

2º e-mail (14/06/02):
Queridas amigas,
Tudo bom?
Viajei para o Rio na 2ª feira sem a Fifi, mas pensando nela todo o tempo. Voltando ontem, fui procurá-la. Falei com a Teresinha, a empregada do João Ricardo, e disse que ia dar um banho na Fifi. Aí ela me disse para ver se eu ficava com ela, porque não estava agüentando vê-la apanhar tanto. Quando vai socorrê-la, o João Ricardo se tranca no quarto e ela não pode fazer nada. Disse ainda que se eu ficar com a Fifi, vai ser bom para ela. Imaginem com eu fico nessa situação. Mas, eu peguei a Fifi, dei um banho nela, a escovei, coloquei lacinho, perfume, dei comida. Ela adorou... Tirei retrato dela em cima da minha cama. Vocês não acreditam, mas ela é linda, linda, linda!!! Levei-a para passear lá embaixo. O porteiro e as faxineiras a acharam diferente. Nem parece a Fifi. Está mais linda!!! De repente, a porta do elevador se abriu, e quem apareceu? Os pais do João Ricardo. Eles olharam para mim com a Fifi e perguntaram se era a minha cachorrinha, a Natasha.. Eu fiquei tão encabulada que não sabia como dizer que era a Fifi. Aí, eu disse: “- Olha, Fifi, a mamãe chegou”. O pai do João Ricardo ficou parado, sem entender nada. A mãe, disse: “- Nossa! É a Fifi. Eu nem estava a reconhecendo, de lacinho rosa, cheirosa. Ela agora nem vai querer voltar para casa dela, não é Fifi”? Nossa! pensei. E agora? Pacheco, disse que eu vou arrumar rolo com vizinho por causa de cachorro. Mas, eu fui logo dizendo: “- Vai, sim. Não é Fifi? Você adora a sua casinha e o João Ricardo, não é?" Fifi, que não é boba, não disse nada. Só olhava e esperava que aquele rolo terminasse.
Bem, resumindo: eles saíram, pois eu disse que era a madrinha dela e que ficaria com ela para eles saírem, sempre que fosse necessário. Subi com ela, feliz da vida e com a certeza de que Deus está me aprontando alguma. Como será que esta história vai acabar? Beijos.
Tantan

3º e-mail (20/06/02):
Minhas amigas,
Olha que essa história da Fifi vai dar um livro. Hoje eu estava triste, pois ainda não tinha visto a Fifi esta semana. Notaram que eu falei “estava triste”? Olha como Deus está na jogada. Ontem, eu tentei vê-la, mas a Teresinha me disse que não podia entregá-la para mim. Pensei logo que ela tinha recebido ordem nesse sentido. Aí, eu disse: “- Não diz nada que eu vim aqui, não quero brigar com vizinho por causa de cachorro. Meu marido também me disse para eu deixar para lá, que ele me dá outra. Mas você sabe o que é paixão?"
Hoje, saí para fazer compras ao meio-dia e só voltei às 16 horas. Quando já ia entrando no elevador da garagem do prédio, apareceu a Teresinha correndo para falar comigo: “- Minha patroa disse para a senhora pegar a Fifi na hora que quiser. Por ela, a senhora ficava com a Fifi, mas o marido dela ainda está em dúvida se o João Ricardo quer ela ou não. Ela mandou perguntar se a senhora fica com a Fifi na sexta-feira, para ela poder viajar neste fim de semana”.
E aí? E agora? Estou ou não estou ganhando a Fifi? Olha, ainda tem mais. Minha mãe, quando eu entrei em casa, disse: ”- O menino trouxe a cachorrinha para você, mas eu nem abri a porta. Disse que você tinha saído”. Fiquei uma fera: “- Eu não acredito! Por que você não disse que eu estava no banho e pegou a Fifi?" Mas não faz mal. O que é do homem o bicho não come.
Bem, até. Um beijão para vocês.
Tantan

4º e-mail (28/06/02):
Oi queridas,
Como vocês sabem, continua a minha luta pela Fifi. Para adoçar a boca do João Ricardo, hoje eu fiz aquele suspiro que só eu faço e mandei para ele. Ainda não fui apanhá-la nem uma vez esta semana, mas olha como eu estou. Hoje, no café da manhã, abri a geladeira e peguei uma pastinha, que comi com pão. Quando acabei de comer, achei estranho achar outra pastinha na geladeira. Eu tinha comido o patê da Fifi. Sabe aquelas latinhas de patê de frango?... Pois é. Não acredita? Eu juro que é verdade. Fiquei com o estômago ruim o dia todo. Até me lembrei da Roberta, que comeu a ração da Natasha, lá na fazenda. Vocês se lembram?
Bem, até a próxima semana. Espero que com uma ótima notícia. Beijos.
Tantan

Continua...

FIFI - Continuação

5º e-mail (02/07/02):
Minhas queridas,
É com imenso pesar que eu inicio o quinto capítulo desta saga canina. Hoje, amigas, acho que perdi a Fifi para sempre. Cheguei da fazenda e logo liguei para saber da minha afilhada, pois, para ser simpática, passei a dizer que eu era a madrinha dela. Peguei-a para o banho semanal, mas o João Ricardo quis vir junto. Como não adianta falar com ele, eu inventei que ia tomar banho também, o que é até verdade, pois eu entro no chuveiro com ela no colo. Não demorou muito e o menino estava batendo na porta do apartamento. Minha faxineira abriu e ele, enquanto esperava, ficou correndo pela casa. Eu me tranquei no quarto e fui secar a Fifi. De vez em quando ele batia na porta: “- Abre!”
A Natasha, que também estava dentro do meu quarto, começou a latir, e quando eu abri a porta, partiu para cima dele e mordeu a sua perna. Olha, minhas amigas, não deu tempo de segurar. Ela estava na coleira, mas mesmo assim deu um pulo. Eu gritei, mas já era tarde. O menino gritava e eu e a empregada não sabíamos o quanto ele tinha ficado ferido, pois não dava para ver. Quando levantamos a sua calça, a perna sangrava. Aí, eu pensei: a Fifi já era..., Perdi a Fifi. O que eu vou dizer para a mãe desse menino? Não demorou muito e ela apareceu na porta do apartamento, chamando por ele. Acho que escutou os gritos, pois ela mora no 7º andar e eu no 6º. “- Pára de chorar. Não foi nada”, ela falava. “- Eu disse para você não descer”. E eu dizia: “- Olha, ela é vacinada. Mas me desculpe”.
Amigas, foi horrível. Vocês já passaram por isso? Um de seus filhos morder o filho do vizinho? Não? Pois eu lhes dou um conselho: nunca deixem seus filhos morderem o filho do vizinho...
Ela subiu para cuidar do filho, e eu fiquei com a Fifi no colo, mas com a certeza de que era só por poucas horas. As últimas horas.
Mais tarde, quando ela veio pegar a Fifi, eu pedi ao Pacheco para me ajudar a arrumar a situação. Como ela é muito educada, parece que ficou tudo esclarecido. Mas não sei não. O que vocês acham? Será que perdi a Fifi?
Um grande abraço.
Tantan

6º e-mail (09/07/02):
Oi galera,
Olha que lindo. É um texto de um autor que eu não me lembro e que adaptei para a Fifi. Eu não a vejo desde o dia em que a Naná mordeu o João Ricardo, de raiva. Penso que ela não está achando graça nenhuma nisso tudo, pois acho que ela quer vir para mim.

FIFI
Desejo primeiro que você viva, e que vivendo, seja amada. E se não for, não guarde mágoa.
Desejo também que tenha amigos, mesmo que maus e inconseqüentes, mas que sejam corajosos e fiéis, e que pelo menos num deles você possa confiar.
Desejo ainda que tenha inimigos e que dentre eles haja pelo menos um que seja justo.
Desejo que você seja útil, carinhosa e fiel, mas não insubstituível, e que nos maus momentos isso sirva para manter você de pé.
Desejo que seja tolerante com os que erram, que seja alegre e que descubra que a alegria diária é boa.
Desejo que você afague um gato, porque assim você se sentirá feliz.
Desejo que tenha saúde, não sinta fome nem frio e que tenha uma cama para se aninhar neste inverno.
Desejo por fim que você tenha uma família que a ame hoje, amanhã e no dia seguinte.
E quando estiverem cansados e irritados com você, ainda haja amor para recomeçar.
E, se tudo isso é sonhar, estou aqui para sonhar com você.

Gostaram? Beijos a todas vocês.
Tantan

7º e-mail (10/07/02):
Queridas amigas,
Hoje eu tive mais uma surpresa nessa história da Fifi. Me ligaram, para perguntar se eu poderia apanhá-la e cuidar dela. Ela estava toda suja, pois o João Ricardo tinha descido o morro correndo com ela e um amigo, e sumido lá embaixo, na cidade. Sua mãe pegou o carro e teve que procurá-lo. Ele e o amigo estavam brincando no mato, correndo. A Fifi estava exaurida e cheia de carrapicho, carrapato, lama... Pode?
Eu disse que já ia subir para apanhá-la. Quando a Teresinha abriu a porta, ela correu para mim. Aí, ela falou: “- A patroa disse que vai resolver isso logo, mas está achando que o João Ricardo não vai sair da sua casa e que a emenda vai ser pior que o soneto. A senhora leva a Fifi e o João Ricardo vai junto”. Eu, hein, me acontece cada uma... Ela não quer que o menino sinta falta da Fifi e fique toda hora aqui, me chateando, pois ele é muito desobediente. Eu acho que ele é apenas uma criança superativa. Sei lá. Só sei que a Fifi não pode ficar lá e ser pisada e socada.
Bem, peguei a Fifi no colo, para voltar para casa. Só que eu estava tão nervosa que em vez de descer um andar, subi um e entrei no 804, que estava com a porta aberta. Eu entrei falando com ela: “- Vamos tomar banho, escovar, lindinha da mamãe”. Quando olhei para a frente, vi que estava dentro de uma casa estranha. Surpresa, vi um armário grande e fiquei rodando e olhando. “- O que foi que aconteceu aqui?" Aí, caiu a ficha. Bati a porta e saí correndo pela escada até o 604. Minhas amigas, quando eu estou com a Fifi, não vejo nada. Só ela.
À noite, quando a mãe do João Ricardo veio buscá-la, ela estava tosada, de roupinha do Mike e borboletinha no cabelo, casaquinho xadrez de preto, branco e vermelho. Linda! Linda! Linda! Então, ela disse: “- Nossa! Ela tem que ser sua. Eu não gosto de cachorro e nunca vou fazer isso”. Na conversa fiquei sabendo que a Fifi nem tomou as vacinas. Pode? Semana que vem vou providenciar isso.
Beijos da amiga muito Tantan

8º e-mail (15/07/02):
Oi turma,
A vocês que vêm me acompanhando nesta saga canina, tenho uma ótima notícia. Depois de biscoitinhos e suspiros para lá, a Fifi veio para cá. Hoje, eu fui levar os retratos dela para o João Ricardo. Peguei-a no colo e disse que queria que ela ficasse comigo neste fim de semana. Ganhei! A mãe dele disse que podia e que ela ia ser minha mesmo, pois estava procurando uma casa, para ter um quintal para o João Ricardo e aí sim, ter um cachorro grande como ele deseja, para jogar bola com ele.
Vocês podem avaliar a minha alegria. Acho que estava escrito. E Deus está ajudando, vocês não acham? Até o Pacheco está torcendo para esta novela terminar bem e a Fifi ficar com a gente.
Ela agora está no meu colo, dormindo de barriga cheia, enquanto eu estou escrevendo para vocês. A Naná também gosta dela. Eu disse que ela não brigasse com a Fifi porque ela é muito boazinha. Parece que ela entendeu. As duas nunca brigam e, assim, pode acabar tudo bem.
Bem, minhas amigas, acho que essa história está chegando au, au, au fim.
Beijos da amiga muito Tantan

Continua...

FIFI - Final

9º e-mail (17/07/02):
Queridas amigas,
É com grande alegria que estou dormindo com a minha filhinha há 2 dias, 28 minutos e 10 segundos. Mas isso pode mudar a qualquer momento, pois se o João Ricardo sentir falta dela ele virá apanhá-la, conforme me alertou a sua mãe. E, olha só: eu concordei! Eu tenho que esperar para ver. Isso está até parecendo um jogo. Quem dá mais pela Fifi? Mas, enquanto isso não se resolve, tenho fé. Acho que Deus não ia fazer algo errado comigo e nem com ela.
Em todos os momentos ela se parece com o Mike: no modo de olhar, de andar meio tortinha, sem segurança, com medo de tudo. Quando eu sento no computador, ponho o teclado em cima da mesa do monitor e ela fica dormindo na almofadinha que coloco na bandeja do teclado.
Bem, minhas amigas. Até o próximo e-mail. Um grande beijo desta amiga velha, que não pode mais fazer bebê de proveta e fica roubando o cãozinho do vizinho. Cada maluco com sua mania, não é?
Tchau, da amiga muito, muito Tantan.

P.S.: “Sempre há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura” (Friedrich Nietzsche)

10º e-mail (30/07/02):
Queridas amigas,
Estou desesperada! Olhem o que aconteceu comigo agora, neste minuto. Eu não agüento mais! O João Ricardo veio aqui, entrou, pegou a Fifi e saiu correndo com ela e o seu amiguinho Lucas, o mesmo que a levou para o mato, onde ela se encheu de carrapatos. Eu subi atrás deles gritando: “- Espera João Ricardo, me dá a Fifi. Você não quer ela. Cadê a sua mãe”? A Teresinha foi logo dizendo: “- Foi o Lucas que inventou essa história de apanhar a cachorra com a senhora. Eu não estou agüentando mais. Vou falar com a mãe dele para deixar a senhora levar ela”.
Eles se fecharam no quarto com a minha Fifi e eu falei para eles não a levarem para a rua, pois ela tinha tomado banho. Desci a escada e estou aqui no computador. Puxa, eu tinha até me esquecido do computador, pois esses dias foram só com a Fifi para cá e para lá.
Rezem pela minha Fifi, pois já se passaram quatro horas e nada dela.
Agora, vou confessar uma coisa para vocês, que me fez ficar embasbacada: quando eu abri a porta e o João Ricardo a chamou, ela esperneou para sair dos meus braços e ir para ele. Ela fez tanta festa para ele, que eu fiquei pensando... é minhas amigas, cão é cão, nunca esquece o seu dono, por pior que seja a casa e a comida, não é mesmo?
Agora, o que eu faço: deixo a Fifizinha lá ou brigo por ela? O pior é que agora ela já entrou na minha vida e eu não consigo viver sem ela. Por favor, mandem e-mails dando a sua opinião sobre este caso.
Beijos da amiga muito, muito Tantan

11º e-mail (02/08/02):
Oi turma,
Que saudade dessa cadelinha que há quase dois meses passou a fazer parte das nossas vidas. O pior é que eu sabia dos problemas que poderiam acontecer, eu pressentia. Pacheco disse que me daria outra, para eu esquecer da Fifi. Mas as caras que ela fazia quando eu a pegava, aquela bolinha de focinho preto, olhar meigo e pelo branco... Tudo nela me encantou. Conquistou também o Pacheco. De manhã o acompanhava no café, pulando para ganhar casca de pão, igualzinho à Natasha. À noite ela se encostava nele enquanto ele lia o jornal. Ficava triste quando saíamos para ir ao cinema, deixando-a sozinha com a Naná e muito alegre quando recebia os beijos e abraços na nossa volta. Era cheia de truques e dona de muita personalidade. Se gratidão tivesse cara, teria a cara da Fifi.
Dia 30, o João Ricardo veio e a levou embora. O que será de mim agora. Nascemos uma para a outra. Somos almas gêmeas, inseparáveis. Passei a acreditar na transmigração das almas, na metempsicose, nessas esquisitices todas. É... o negócio é grave.
Minhas amigas, me digam o que eu faço!
Beijos, Tantan

12º e-mail (09/08/02):
Queridas amigas,
Hoje, cheguei à conclusão de que a retardada nessa história toda sou eu. Vocês devem estar perguntando por quê e eu vou lhes dizer. João Ricardo, que eu disse ter um problema, hoje trouxe uma carta na qual ele pede em troca da minha Fifizinha nada mais nada menos do que esta lista baratinha e própria de uma criança bobinha: 1 Play Station nº 2 (segundo ele, o nº 1 está ultrapassado), os CD´s nº 1,2,3,4 e 5 do Crest, que eu não sei o que é. Será que esse Crest é disco de rock ou pasta de dente? Acho que estou enlouquecendo... E para finalizar, ele pede também um Memory Card. O que será isto? Vocês podem me dizer? Será que é um livro para a memória? Vocês que são minhas amigas, por favor me ajudem, senão eu não sei não.
Enquanto eu lia a carta, ele deixou a Fifi cair no chão, correndo o risco de quebrar o pescoço e morrer. Eu quase desmaiei e ele nem aí. Então ele entrou e se trancou no quarto da empregada com a Fifi e ficou a maltratando e eu, desorientada, batendo na porta. “- Abre! Me dá a Fifi!... Abre essa porta!... Vou chamar a sua mãe”! Quando ele abriu, minha vontade era dar nele. Peguei a Fifi e disse: “- Tá bom! Eu vou te dar o play center, o memorial do sei lá o quê, os CD´s do Zeca Pagodinho, da Xuxa, da Angélica, o que você quiser, mas não encosta a mão na Fifi nunca mais, ouviu”?
Agora que eu contei tudo para vocês, estou mais calma. Parece que ela está bem da queda. Está no meu colo e eu escrevendo. Ela adora o barulho das teclas do computador. Está roncando.
Tchau. Um beijão para vocês e obrigado por me ouvirem e pelos e-mails que me enviaram.
Da amiga muito, muito Tantan

13º e-mail (15/08/02):
Minhas queridas amigas do coração,
Negócio fechado. Final feliz, aliás felicíssimo. A Fifi é minha.
Botei o Pacheco para traduzir a proposta do João Ricardo. Como ele também não sabia do que se tratava, levou a lista para o serviço e a mostrou para o André, um estagiário recém-formado e muito bem atualizado quanto a esse tipo de novidade. Acertou em cheio. O André lhe deu todas as dicas, preços e locais onde os itens podiam ser comprados. Eu tomei o cuidado de checar com a mãe do João Ricardo se ela sabia da carta e se estava de acordo com o nosso “negócio”. Ela e o pai concordavam, mas achavam que o menino tinha exagerado no pedido. Expliquei que eu e o Pacheco estávamos de acordo e, mais do que isso, estávamos muito felizes. Depois dessa conversa, fomos às compras e a nossa família ganhou mais um membro. Custou, mas valeu.
Eu e a Fifi temos total identificação. Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uma da outra.
Um enorme abraço e um beijão para vocês. Este mundo é muito lindo, não é verdade?
Da amiga cada vez mais Tantan

REFLEXÕES (parte 1/2)

Pacheco estava sentado numa cadeira no jardim da sua casa, observando o movimento dos aviões no aeroporto, bem próximo dali. Ainda estava tentando se acostumar à nova realidade, sua condição de aposentado. Meu Deus, como a vida passa rápido! Outro dia mesmo ele estava indo para o Rio para estudar, e já se foram quase cinqüenta anos. Agora, quando acorda pela manhã, fica pensando como vai preencher as horas do dia. Acha que a vida está meio vazia. Mas já foi diferente. Bem diferente. Houve época em que não tinha tempo para nada. Vivia mergulhado no trabalho. Um dia, tomou um susto ao perceber que seu filho já era um homem feito.

Da cadeira em que estava sentado, podia ouvir muito bem a música que vinha da televisão. A seqüência do canal da TV por assinatura estava ótima para um cara da sua geração. A Time Goes By, Tema de Lara, Begin the Beguine, What the World Needs Now is Love... Que legal! Começou a se lembrar dos bailes, tão comuns na sua juventude. Não perdia um. Sem perceber foi se afastando da realidade, viajando no tempo. Seu pensamento foi se fixar nos seus primeiros dias no Rio, para onde foi para fazer o cursinho vestibular para Engenharia. Nessa época, passou a morar na Tijuca, na casa de uma tia. Todo dia pegava o bonde 66 para ir e voltar do cursinho, que ficava no Castelo. Logo veio à sua cabeça o pregão do jornaleiro que toda tarde pulava no estribo do bonde, na rua Sete de Setembro, e anunciava: “Olha o Globo, Diário, Notícia, Tribuna e Última Hora”. Lembrou-se também do caso do homem gordo, de terno que um dia estava sentado na extremidade de um dos bancos do bonde, junto ao balaústre, lendo o seu jornal, quando saltou da rua para o estribo um sujeito com um charuto na boca. Na manobra, seu charuto, que estava aceso, bateu no balaústre e caiu dentro do bolso do paletó do gordo. O pingente não teve um momento de hesitação. Saltou do bonde imediatamente, deixando que o gordo descobrisse sozinho o incêndio que estava por começar no seu bolso.

Apesar de ser carioca, ele fora criado no interior do estado, e aquela era a sua primeira experiência de vida no Rio. Vibrava com a sua condição de vestibulando e admirava a maioria dos professores do cursinho, todos com larga experiência em preparar a moçada para enfrentar a enorme barreira que os jovens tinham que transpor para chegar à universidade. Naquela época era bem pior do que hoje em dia, pois havia menos opções. Lembrou-se do prof. Furtado, que lecionava álgebra e parecia adivinhar quando alguém ia ter dúvida sobre algum ponto da matéria. Ele interrompia a seqüência do que estava explicando, ia até o outro lado do quadro e detalhava a suposta dúvida como se fosse um parêntesis, esclarecendo tudo sobre o assunto. Depois voltava ao ponto em que havia parado, dando seqüência à sua explicação. Quando chegava ao fim, tudo parecia muito simples e fácil. Ele era um verdadeiro mestre na arte de ensinar. Outro bom professor, mas sem a simpatia e o bom humor do prof. Furtado, era o José Luís, de geometria descritiva, conhecido como Cota Nula, devido à sua baixa estatura. Como ele detestava o apelido, logo um grupo de alunos passou a riscar no quadro uma linha horizontal como se fosse a linha de terra, com a anotação “zero”. Acima dela colocavam as cotas +1, +2, +3...+n e, abaixo, –1, -2, -3 ... –n. O homem entrava na sala para dar a sua aula, percebia a gozação, mas o máximo que conseguia era apagar o quadro até o nível da linha de terra. Chegava a soltar fumaça. Cedo, a turma também descobriu um aluno que além de sofrer de claustrofobia, tinha uma outra mania bem esquisita. Ao passar pelo corredor entre as salas de aula, ele ia a cada um dos interruptores de luz e dava dois cliques, apagando e reacendo as luzes. A primeira maldade com ele passou a ser fechar as janelas. Assim que percebia isso, ele, que ia sempre de terno às aulas, começava a afrouxar a gravata e a se abanar. Quando a aula acabava, o pessoal corria para o corredor e cada um se encostava num interruptor. Ele saía da sala e vinha esfregando a mão na parede em direção ao primeiro interruptor. Estando o mesmo obstruído, tirava a mão somente o suficiente para ultrapassar o obstáculo, e voltava a raspar a parede em direção ao segundo interruptor, e assim sucessivamente. Todos os que se faziam de obstáculo ficavam com um ar distraído, como se a sua presença ali fosse absoluta casualidade. Uma tremenda crueldade!

Aquele tempo difícil, mas muito bom, passou rápido. Logo Pacheco estava cursando Engenharia e havia se mudado para uma república de estudantes na rua Teresina, em Santa Teresa. O bonde agora era o Paula Mattos. A república era um velho casarão mal conservado, administrado pela dona Carmela, uma paciente senhora de uns sessenta anos, e seu filho Carlinhos, um cara boa praça. Ali viviam uns quinze rapazes, quase todos estudantes. Cedo, pela manhã, a maior parte da turma seguia para as aulas. Era a hora de trabalho intenso para a dona Carmela, mas também a parte mais tranqüila do seu dia. O rolo começava no início da noite, quando o pessoal voltava,  e às vezes ia até a manhã seguinte.

Quando ele chegou, existiam dois grupos na república, juntando a moçada que de alguma forma encontrava interesses afins, mesmo fazendo cursos completamente diferentes, em escolas também diferentes. Além dos dois grupos, havia dois rapazes que, por temperamento, mantinham-se distantes do resto do pessoal. Não existia hostilidade entre as tribos assim formadas, mas sobrava muita gozação. Claro que os dois que se isolavam logo se tornaram as maiores vítimas das duas turmas. Um ganhou rapidamente o apelido de Incompetente, porque estava fazendo o cursinho vestibular para medicina pela terceira vez. O outro, um caladão que também era veterano em vestibulares, mas sempre estava pronto a fazer algum favor, especialmente para a dona Carmela, ficou conhecido como Burro Dinâmico. Como não gostou da brincadeira, afastou-se ainda mais do grupo e acabou se mudando para outra república tempos depois. (continua...)

REFLEXÕES (parte 2/2)

Pacheco recordou que o grupo ao qual se incorporou era constituído pelo Mineiro, Naval, Nonato, Tadeu e Capilar. Mineiro era um estudante de Economia, morador de Caxambu, cujas características principais eram a habilidade em botar apelido nos outros e de falar sobre as suas aventuras amorosas. Ele costumava divertir a turma contando os seus namoros e conquistas. Sentia enorme prazer nisso, mas caso ele realmente tivesse vivido metade das suas histórias, teria desbancado Don Juan nas lendas do ramo. Mas, verdade seja dita, em matéria de colocar apelidos nos outros, ele era imbatível. Não é preciso dizer quem batizou os dois companheiros arredios da república. Sua criatividade era tal que muitas vezes bastava um simples relance e os apelidos estavam criados, sendo logo adotados pela turma. O Humberto, por exemplo, ficou conhecido como Capilar por obra do Mineiro, pois era magro, tinha cerca de um metro e noventa de altura e costumava ficar alterado com um único copo de chope. De toda a turma, era o único que não estava na universidade. Na verdade, era propagandista de um laboratório e dizia que fazia um curso supletivo. Apenas dizia, porque jamais foi visto indo às aulas ou estudando. Na verdade, era também raro vê-lo sair para trabalhar. Gostava mesmo era de jogar conversa fora. Tinha um certo dom para o teatro, pois ao contar suas histórias  colocava tanta dramaticidade que prendia a atenção de todos. Um dia, tomando chope com Nonato num bar, conseguiu que este acabasse vomitando ao ouví-lo descrever em detalhes uma viagem de ônibus pela Rio-Bahia, com destino a Leopoldina, sua terra natal, num dia de sol quente, muita poeira e forte cheiro de óleo diesel exalado pelo motor do ônibus. E olhe que quem costumava ficar tonto com um único copo de chope era ele.

Naval fazia Medicina. Tinha esse apelido porque fora aluno do Colégio Naval. Era um cara inteligente e boa pinta, que fazia sucesso com o mulherio, mas tinha um fraco pelo carteado, que chegava a prejudicá-lo na faculdade. De vez em quando desaparecia por uns dois ou três dias para se dedicar ao sonho de ficar rico de uma hora para outra.  Nonato veio de São Luís, Maranhão, e estudava Geologia. Era um bom sujeito e costumava ser alvo de muitas gozações da turma, principalmente pela sua ingenuidade. Tadeu era do interior do estado e também fora para o Rio para fazer Engenharia. Era um sujeito calmo, que não se abalava por nada. Talvez por isso, tenha feito o seu curso em sete anos.

Em geral, cada um que passava pela república da dona Carmela ficava por lá de três a cinco anos. A cada ano havia uma significativa rotatividade dos moradores. Mineiro, usando da sua capacidade de criar apelidos como quem faz caricaturas, teve tempo suficiente para batizar muita gente de fora do seu grupo. Dentre esses, pelo menos dois entraram para a história da república. Tic-tac, aplicado a um estudante de vestibular vindo de Goiás, devido ao seu cacoete de balançar a cabeça de um lado para o outro,  parecendo o pêndulo de  relógio. O outro, foi para o Ronaldo, um acadêmico de Direito  que andava permanentemente com um livro debaixo do braço, embora não soubesse dizer nem o que estava escrito nas orelhas da capa. Ganhou o apelido de Sovaco Erudito. Genial! Ficou famoso o grito aterrorizante que ele deu certa noite. Ao chegar no seu quarto e acender a luz, viu que sua mão estava a menos de um palmo de uma enorme aranha preta, pendurada a uma teia. Só depois de um tremendo escarcéu, reparou que a aranha era de plástico e a teia era uma linha amarrada ao interruptor. Os anais da república não registram o autor da brincadeira, mas as suspeitas mais consistentes recaíram sobre o Capilar, que entretanto jamais admitiu ser o responsável pelo quase enfarto do pobre Sovaco Erudito.

Mineiro, em geral um algoz, também tinha seus dias de vítima. Tadeu, com seu ar de desligado, costumava deixar o seu maço de cigarros em cima da mesa da sala que a turma usava para estudar e o Naval para jogar. Mineiro, em pelo menos duas ocasiões, filou desses cigarros e ao acendê-los foi surpreendido com uma explosão, tomando um tremendo susto. Chocado, ele abria o seu dicionário de palavrões e insultos para dispará-los como metralhadora contra todos que estivessem por perto. Tadeu, que comprava esses cigarros especiais numa casa de produtos para mágicos na rua do Ouvidor, nessas horas comportava-se como se também tivesse sido apanhado de surpresa.

De repente, o ruído de um avião prestes a decolar fez Pacheco acordar do seu mergulho no tempo. Parece que aquilo tudo acontecera  ontem. Mas onde estariam esses companheiros que o tempo separou? Incrível como amigos tão próximos durante uma fase importante da vida podem seguir caminhos tão diversos, que nunca mais se encontram. De toda a turma da república da dona Carmela, ele só sabia do destino de Naval. Por sinal, um destino trágico. Pouco tempo depois de formado ele já havia construído um conceito de ginecologista competente, mas o jogo e a bebida acabaram com a sua carreira e a sua vida. Morreu de enfarto cerca de dez anos após se formar. De Mineiro, Capilar, Tadeu e Nonato, há muito tempo ele não tinha nenhuma notícia. A menos do Capilar, que continuou morando na república, os demais, assim como ele, tinham voltado para as suas cidades de origem. Hoje, talvez até já estejam em outros lugares, com seus filhos e netos. Como saber? Sua viagem ao passado estava acabando. Seu rosto esboçou um leve sorriso pela lembrança daqueles tempos de tantos projetos, enquanto seus olhos ficavam molhados por algumas lágrimas de nostalgia. Naquele momento, teve uma grande vontade de rever a sua antiga turma, saber da história de cada um.

Num certo momento Pacheco sentiu a ficha cair. A vida nunca pára de se renovar. Está a caminho Alice, sua primeira neta, que nascerá em breve. Um novo ciclo de vida está por se iniciar e, quem sabe, pensou, quando ele menos esperar, estará se divertindo com as histórias da sua neta, como as que ele acabara de recordar. Ficou muito claro na sua mente que tinha mais é que curtir intensamente esses novos tempos, pois a vida realmente passa muito depressa. Num átimo.

METALEIRO

Metaleiro. Assim se chamava o papagaio que a Tia Tantan ganhou e levou para a sua fazenda. Ele ganhou esse nome porque dois dedos do seu pé direito eram duros e ficavam permanentemente esticados. Assim, quando ele levantava esse pé, parecia estar imitando a saudação característica dos metaleiros. Quem o conhecia melhor, como eu, sabia que fora esse pequeno detalhe, ele nada tinha de metaleiro, pois vivia quase sempre em absoluto silêncio. Uns achavam que ele era mudo. Outros diziam que devia ser uma fêmea, pois as fêmeas de papagaio praticamente não falam. Sei lá. Mas como todo papagaio que se preza tem que ser personagem de histórias gaiatas, logo surgiu uma lenda que divertia os amigos que nos visitavam: Uma vizinha, tendo ouvido dizer que tínhamos um papagaio, veio nos visitar trazendo a sua papagaia  para cruzar com ele. Ao perceber o defeito no seu pé, disse que não ia dar, porque ele era aleijado. Ao ouvir isso, Metaleiro reagiu imediatamente: “A senhora trouxe a Loura para transar ou para jogar futebol?”. E, assim, mesmo caladão, Metaleiro foi entrando para o folclore da fazenda. Nunca deixava de ser citado.

Tia Tantan, que era uma tremenda gozadora, sempre que podia, gastava algum tempo junto à placa que servia de moradia para o Metaleiro tentando ensinar algumas frases para surpreender nossos visitantes, tipo “Ih, ele chegou com mala!”, “Maria, bota água no feijão”, “Outra vez?”, e por aí vai. Também não deixava de ensinar todos palavrões que conhecia. Essa segunda lição era dada em voz baixa para não criar uma situação embaraçosa entre ela e os empregados, que involuntariamente podiam flagrá-la dando suas aulas. Mas Metaleiro não se manifestava. Apenas prestava atenção, tal qual uma coruja. Certa vez, porém, eu estava lendo na varanda da sede da fazenda, quando comecei a ouvir uma sessão impressionante de xingamentos vinda do outro canto da varanda. Parecia até uma discussão de cais do porto. Tudo isso muito baixinho, quase sussurrado. Fui ver do que se tratava e para surpresa minha, verifiquei que era o Metaleiro, numa demonstração cabal de que havia aprendido muito bem os ensinamentos recebidos da Tia Tantan. Até mesmo no que diz respeito ao volume empregado para xingar.

Um dia o Metaleiro fugiu da sua placa, onde ficava preso pelo pé, por meio de uma correntinha. E fugiu levando junto a tal correntinha. Passamos o resto do dia procurando por ele e  nada. Mais uma vez ele permanecia calado. Assim foi, até que a fome e a sede começaram a apertar. Aí, ele começou a emitir alguns sons e conseguimos localizá-lo. Ele estava no alto de um eucalipto. Preso. Quando ele pousou lá, a correntinha se enroscou num galho, prendendo-o lá em cima. Já estava anoitecendo e, por isso, o resgate teria que ser deixado para o dia seguinte. De manhã, bem cedo, começamos o salvamento. Tínhamos que deixar o assunto resolvido, pois íamos viajar logo após o almoço e não queríamos que ele corresse o risco de ser abandonado lá em cima. Pedi então ao Leleco, nosso caseiro, para encostar no eucalipto a maior escada disponível, para ele subir e resgatar o Metaleiro. Assim foi feito, mas a escada ainda era curta para resolver o problema, uma vez que acima do seu topo sobrava muito pé de eucalipto e o papagaio estava a pelo menos uns cinco metros mais ao alto. Diante disso, orientei o Leleco para pegar um machado, subir pela escada e, em seguida, pelo próprio eucalipto, até onde fosse possível, para então cortar o seu tronco, usando o machado. Ainda em dúvida, ele ponderou:

- Se eu fizer isso, ele vai cair e morrer da queda.

- E se ficar preso lá em cima, ele vai morrer de fome e sede. Portanto, é melhor a gente tentar, insisti.

Assim foi feito. Com as machadadas do Leleco, uma parte do eucalipto caiu de uma altura de uns dez metros diretamente na estrada de terra, ao lado do portão de entrada da fazenda. Junto com ela veio o Metaleiro. Antes que a gente pudesse reagir, eis que Metaleiro surge no meio dos ramos verdes do eucalipto e grita:

- Pôrra!!!

Jamais tinha falado assim, tão alto e tão claro. Estava salvo o papagaio da Tia Tantan.

O ASSALTO

Já faz tempo. Era a tarde de um sábado movimentado na cidade. Naquela noite aconteceria o Baile da Primavera, uma das principais promoções do maior clube local. Não se falava outra coisa e àquela hora o mulherio estava todo concentrado nas tarefas de praxe dessas ocasiões.

Tia Tantan saiu de casa apressada, pois tinha certeza de que o salão de cabeleireiro que costumava freqüentar devia estar lotado. Ela era carinhosamente assim chamada pelos amigos e pelos numerosos sobrinhos, de sangue ou apenas de coração, devido à alegria que transmitia e à sua enorme capacidade de fazer trapalhadas.

Quando chegou na tranqüila rua do salão, teve dificuldade para arranjar uma vaga para o seu fusquinha. Tão logo conseguiu estacionar, partiu rapidamente para lá, juntando-se ao grupo de mulheres que lá estava se embelezando e colocando a fofoca em dia, para também dar um toque especial nas suas madeixas.

Algumas horas depois, já noite, a cabeleireira liberou Tia Tantan. O salão já estava quase vazio. Das clientes, só tinha ficado lá a Dona Bené, porque ainda não havia completado sua revisão geral. Dona Bené era uma professora aposentada, casada com o presidente do clube onde aconteceria o baile. Tinha fama de ser mal-humorada e criadora de casos, mas naquele dia estava muito amável, pois afinal estava se sentindo a primeira dama da sociedade.

Tia Tantan, que sempre teve a sensação de estar atrasada para alguma coisa que nem ela mesma conseguia identificar, saiu apressada para o carro. Tentou abrí-lo várias vezes, mas a chave teimava em não obedecê-la. Como não podia perder muito tempo nessas tentativas, resolveu então forçar o vidro da porta do lado do motorista. Quando conseguiu baixar um pouco o vidro, esticou o braço para dentro do fusquinha até sua mão alcançar a maçaneta, e assim abriu a porta. Viu-se em seguida diante de outro problema. Por um motivo que ela não sabia explicar, a chave também não funcionava na ignição. Para enxergar melhor o que estava fazendo, acendeu os faróis do carro. Fez novas tentativas para que ele funcionasse, e nada. De repente, pelo espelho retrovisor, percebeu um adesivo de escola de engenharia colado no vidro traseiro, que positivamente não estava lá quando ela chegou ao salão. Numa fração de segundo percorreu com os olhos todo o interior do carro e logo descobriu que no banco de trás havia umas sacolas que também não eram suas. Olhou para frente e, com a ajuda dos faróis acesos, pôde ver o seu fusca estacionado uns vinte metros à frente, exatamente no local onde o deixara.

Sentiu um frio na espinha. Num instante percebeu que arrombara o carro de alguém. Provavelmente, o de Dona Bené. Sua memória também trouxe à tona instantaneamente um fato que acontecera tempos atrás: com essa mesma chave, certo dia estava tentando abrir um fusquinha, que imaginava ser o seu, quando um rapaz se aproximou e disse:

- A senhora não quer usar esta chave? E lhe deu uma outra chave de fusca.

Tia Tantan fez uma tentativa com a chave emprestada, e a porta logo abriu.

- Pois é, disse o rapaz. Este carro é meu.

Ela quase desabou.

Agora, sentindo-se reincidente, tremia e suava. Sua primeira reação foi sair dali o mais rápido possível. Tentou levantar o vidro da porta, mas este não queria subir de jeito nenhum. Com o auxílio de uma das mãos e acionando a manivela com a outra, acabou conseguindo fechá-lo. Saiu então apressadamente em direção ao seu fusca. No meio do percurso notou que a rua estava muito clara. Instintivamente, olhou para trás e quase desmaiou. Tinha deixado os faróis do carro acesos. Por um instante pensou o que fazer: Ir embora logo ou voltar e apagá-los? Decidiu voltar, mas para poder desligar os faróis foi obrigada a novamente arrombar o fusquinha e, depois, fechar o vidro no peito e na raça.

Feita essa nova operação, correu para casa. Ao chegar, entrou gritando de tal forma que quase matou de susto Pacheco, o seu marido. Queria falar, mas as frases saiam meio sem nexo. Depois de beber uns dois copos d´água e de se acalmar um pouco, conseguiu contar a sua história.

Pacheco, que era um sujeito quadrado e que gostava de tudo certinho, a censurou duramente por não ter voltado ao salão para verificar se o fusquinha era mesmo de Dona Bené e, se realmente fosse, ter combinado com ela que pagaria o vidro, além de pedir desculpa pelo ocorrido. Salientou, porém, que ainda havia um jeito. As duas certamente iam se encontrar no baile e aí Tia Tantan poderia se redimir. Insistiu muito nessa recomendação.

Ao chegarem ao baile, Pacheco continuava de cara fechada. Tia Tantan, que tinha o seu lado de psicóloga, logo entendeu que a noite estaria perdida se não atendesse o desejo dele. Na primeira oportunidade que teve, disse que ia ao toalete. No caminho, parou na mesa de Dona Bené.

De sua mesa, Pacheco a viu cumprimentar Dona Bené e o marido. Só não podia ouvir a conversa. Dona Bené comentou com Tia Tantan que a cidade estava ficando cada vez mais perigosa. Não se tinha mais tranqüilidade.

- Imagina que hoje, lá no salão, tentaram arrombar o meu carro. Graças a Deus não chegaram a roubar nada, mas estragaram um vidro.

Tia Tantan, com as pernas bambas, mas tentando aparentar estar apenas surpresa, só conseguiu dizer:

- É mesmo?

Encerrou a conversa o mais rápido que conseguiu e voltou para a sua mesa.

Pacheco estava ansioso para saber o resultado daquele encontro. Tia Tantan fez um carinho na sua mão e lhe disse:

- Está tudo esclarecido, pode ficar tranqüilo. Ela não quer nem que a gente pague o conserto do vidro.

Rapidamente Pacheco foi recuperando o bom humor. Tirara um peso da consciência, além de sentir que seus conselhos tinham dado um bom resultado. Pouco depois, todo meloso sussurrou ao ouvido de Tia Tantan:

- Vamos dançar? A música está ótima...

NATASHA QUERIDA (1/3)

 

Esta é a história de uma relação intensa, que provocou uma revisão profunda nos meus valores. Durou quatorze anos. Até agora ainda não consegui assimilar o tremendo impacto que me causou a morte da minha Natasha querida, uma dor cuja grandeza ultrapassou todas as previsões que eu tinha feito.

 

Sua história provavelmente é semelhante à de muitos outros cachorros. Aqueles que já perderam um desses parceiros de todas as horas, leais e amigos sinceros, devem saber exatamente do que estou falando. Como eu, devem ter compreendido que essa convivência foi uma oportunidade que tiveram de praticar um poderoso exercício de crescimento interior. Esses companheiros são, na verdade, mestres em tempo integral, com ilimitada capacidade de nos transmitir sólidas lições de vida. Basta a gente prestar atenção.

 

Até nossas vidas se encontrarem, eu jamais poderia supor que um amor tão forte dirigido a um animalzinho pudesse se instalar de forma tão definitiva dentro de mim. Pode parecer ridículo, mas não me importo. Este amor vem de dentro de mim, e não tenho vergonha de confessá-lo. Natasha era uma linda cadelinha poodle, de pelo branco achampanhado, extremamente inteligente, carinhosa, especial. Tão especial que em pouco tempo passou a ser considerada como um membro da minha família, passando assim a ter pai, mãe e irmão humanos. E não há dúvida de que ela também se sentia assim, como filha e irmã. Além disso, ela se sentia nossa guardiã e protetora, não lhe importando o seu tamanho. Essa era a sua missão.

 

Tudo começou quando minha mulher passou a demonstrar o desejo de possuir um cachorro de uma raça que pudesse viver dentro de casa e que lhe fizesse companhia. Coloquei-me veementemente contra essa idéia, pois só conseguia ver inconveniências nisso. Foram alguns meses de tentativas, sempre com minha forte oposição. Por fim, sua teimosia venceu e ela acabou levando para casa a Natasha, então um filhote com cerca de dois meses de idade. Desde o primeiro instante, com seu temperamento alegre e carinhoso, Natasha começou a abrir o seu espaço na sua nova residência e no coração de todos. Particularmente eu, que tanto reagira à sua chegada, fui diminuindo a resistência e começando a me interessar por ela.

 

Em pouco tempo, e com a orientação da sua protetora, Natasha passou a me esperar na porta do apartamento todo fim de tarde, quando eu chegava do trabalho. Sempre limpinha, muito bem escovada e cheia de charme, ela pulava nas minhas pernas e gritava de alegria tão logo eu abria a porta. Natasha não dava a vez para ninguém. O meu primeiro carinho tinha que ser para ela. Para isso usava de todos os artifícios. Abanava com vigor seu cotoquinho de rabo, deitava-se no chão de barriga para cima, faiscava seus olhos de maneira irresistível.

 

Essa atitude sistemática da Natasha foi me conquistando inteiramente. Sem que eu me desse conta, passei a entrar furtivamente em casa na volta do trabalho, me esconder atrás de algum móvel e começar a imitar cabritos, bois e outros animais, para chamar a sua atenção. Ficava escondido assim até ser encontrado por ela. Quando isso acontecia, começava um festival de carinhos de ambas as partes. Num instante eu já a estava chamando de filha.

 

Natasha logo dominava todos os detalhes do seu território, seja no apartamento em que passou a morar quando se incorporou à família, seja nas demais residências que tivemos ao longo da sua existência. Tinha o seu banheiro particular, sempre na área de serviço e o seu local sagrado para dormir durante a noite: a nossa cama. Disso ela não abria mão. Não havia chance de outra alternativa, sob pena de ninguém conseguir dormir na casa. Durante o dia, deitava-se freqüentemente num ponto estratégico, do qual podia controlar a maior parte dos movimentos da casa. Dali observava tudo, mantendo-se sempre muito bem informada.

 

Desde que ela chegou, deixou claro que era boa de boca. Tinha muito apetite e nunca recusava uma refeição. Seu prato básico era ração balanceada, mas seu gosto era bastante eclético, passando por comida caseira, biscoitos, frutas, sorvetes, queijos e por aí vai. Essa característica deu-lhe uma saúde invejável e exigia permanente atenção para evitar exageros que poderiam lhe trazer transtornos, pois o fígado canino não costuma suportar excessos.  (continua...)

NATASHA QUERIDA (2/3)

Com o passar do tempo, Natasha foi desenvolvendo uma enorme capacidade de se comunicar. Aprendeu a “falar” muita coisa. Claro que sua habilidade de se comunicar começou pelos pedidos de comida e água. O processo nesse caso consistia em latir de uma forma bem característica, que repetia o tempo que fosse necessário, ao mesmo tempo em que batia seguidamente com uma patinha dianteira na vasilha a ser abastecida. Completando a comunicação, usava o olhar para não deixar dúvida quanto ao seu pedido. Processo semelhante ela empregava para pedir colo e para pedir para ser posta na nossa cama. Havia momentos em que dava a impressão de ia falar mesmo, tal a inflexão que dava aos sons que emitia.

 

Da mesma forma que sabia dizer o que queria, entendia praticamente tudo que era dito para ela ou a seu respeito. Nesse sentido, seu “vocabulário” era bastante extenso. Natasha adorava passear. Assim que ouvia o convite para um passeio, ou simplesmente a palavra passeio, levantava as orelhas, pendia a cabeça para o lado como quem quer escutar e entender melhor o que está sendo dito, agitava vigorosamente o seu cotoquinho de rabo, corria para o local onde estava a sua coleira e de lá começava a latir para chamar a pessoa que tinha feito o convite. E, de quebra, ainda posicionava o seu pescoço de modo a facilitar a colocação da coleira. Particularmente, o passeio de carro era o máximo para ela. Em geral, ficava no colo da minha mulher prestando atenção a tudo.

 

Ouvir as palavras banho ou toalha fazia com que ela sumisse de circulação. Antes de decorrida uma meia-hora, ela só podia ser encontrada escondida debaixo de algum móvel, de onde só saía depois de muito protesto. Para levá-la para o banho sem dificuldade minha mulher desenvolveu artifícios tais como falar em inglês ou se referir a ela como se fosse uma outra. Ritinha, por exemplo. Paradoxalmente, para Natasha, ficar suja, nem pensar.

 

Ser repreendida por ter feito alguma coisa errada era algo terrível para ela. Sua fisionomia mudava, ficando de olhar baixo, orelhas caídas e um andar derrubado. Saía de fininho e ia se deitar num canto até que alguém a chamasse. Isso acontecendo, levantava-se imediatamente e, com a habitual alegria plenamente restabelecida, voltava a se comportar como se nada tivesse ocorrido.

 

Sua capacidade de se expressar foi se desenvolvendo de uma forma impressionante. Ela se tornava irresistível quando se sentava, ficando com as costas rigorosamente na vertical. Completando essa performance, colocava as duas patinhas dianteiras junto ao peito, sorria com os olhos, entreabria a boca de forma a permitir que a ponta da sua língua, vermelhinha, contrastasse com o seu pelo claro e choramingava de modo cativante. Usava esse artifício normalmente em duas situações: quando estava na coleira, na rua, e via algo que lhe chamasse a atenção, principalmente a minha aproximação, voltando para casa, ou quando via a família reunida na mesa fazendo uma refeição e queria também ganhar algo para comer. Nos dois casos sua vitória era total. Sem dúvida, sabia jogar com os nossos sentimentos. Uma verdadeira artista.

 

Para que pudéssemos sair deixando-a em casa, minha mulher descobriu que a forma de mantê-la tranqüila e sossegada era colocar uma roupa ou toalha usada por ela ou por mim no chão ou na nossa cama, para ela tomar conta. Ela se deitava em cima e lá ficava até que voltássemos. Nesse período, se alguém tentasse tirá-la do lugar, teria que enfrentar a sua ira.

 

Quando estava com quase quatro anos, foi mãe pela primeira e única vez na vida. Deu à luz cinco filhotes. Eu estava viajando. Minha mulher me enviou um fax informando que eu tinha me tornado avô, que a Natasha havia me dado cinco netos. E não é que eu me senti mesmo um avô!  Como era de se esperar, Natasha foi uma mãe exemplar, cuidando de sua numerosa prole com muita dedicação. Não é comum uma poodle, que não pesava mais de quatro quilos, ter cinco filhotes em uma só ninhada. Mas ela deu conta do recado brilhantemente. Depois dessa ocasião, nunca mais teve oportunidade de ter outros filhos, mas nem por isso perdeu seu espírito maternal. Quando já estava com onze anos, minha mulher trouxe para casa uma outra poodle-toy que se encontrava numa situação delicada e estava precisando de um novo lar. Tratava-se da Fifi. Ela era ainda novinha, pouco mais do que um filhote. Os sentimentos da Natasha foram então postos à prova. Se sentiu ciúme, guardou-o para si, pois jamais perdeu a elegância e a altivez. Muito menos maltratou a recém-chegada. Ao contrário, tratou-a com respeito, dividindo com ela seu espaço, evidenciando assim a nobreza do seu caráter e a confiança que depositava em nós e em si mesma.  (continua...)

NATASHA QUERIDA (3/3)

Natasha tinha muita coragem. Jamais amarelou. Isso nos obrigava a ter redobrada atenção sempre que saíamos com ela. Certa vez enfrentou uma cadela pastor-canadense, muitas vezes maior do que ela. Nesse confronto desigual, levou uma mordida na barriga, que só por sorte não lhe tirou a vida, pois não atingiu seus ossos nem algum órgão interno. Mas lhe custou um enorme corte que exigiu quarenta pontos para ser suturado. A pronta ação de socorro e a sua saúde de ferro lhe salvaram a vida. Este não foi o único susto que a Natasha nos pregou. Mas foi o maior. Sua companhia era muito valiosa para nós e fazíamos tudo o que era possível para mantê-la.

 

O tempo, entretanto, é implacável. Cada espécie tem a sua cronometragem específica de vida. No caso de um cachorro, cada ano seu corresponde a cerca de sete anos dos humanos. Assim, os quase quatorze anos que a Natasha já atingira, significavam na contagem dos humanos mais de noventa. Mesmo com sua saúde invejável, sua coluna passou a lhe incomodar e suas perninhas começaram a fraquejar. Apesar de ter sido medicada para aliviar esse desconforto, num certo dia em que foi fazer a tosa, teve início o seu fim. Estávamos em casa quando o telefone tocou e nos foi passada uma notícia que não imaginávamos receber: durante o banho, Natasha tinha ficado totalmente mole e não estava mais se sustentando nas pernas. Tinha ficado tetraplégica. Restava apenas saber se o processo era reversível ou não.

 

Os primeiros dias, em que ela permaneceu na clínica, foram terríveis. Rezávamos por uma boa notícia que não vinha. Temíamos que a não evolução positiva do seu quadro fosse decorrente da possibilidade de ela estar se sentindo abandonada. Então, a levamos para casa e a submetemos a um rigoroso esquema de medicação e fisioterapia, mas ela também não reagiu. Pesava contra si sua idade avançada.

 

Em seguida, foi constatado que ela tinha uma hérnia de disco. Chegamos então ao momento de uma difícil decisão: operá-la da coluna ou deixá-la no estado em que estava para esperar que o seu organismo possivelmente reagisse. Essa decisão não poderia demorar, sob pena de se ultrapassar um limite de tempo dentro do qual a operação poderia ter alguma chance de sucesso. Por isso, autorizamos a cirurgia. Apesar de debilitada pela idade e pelo sofrimento, Natasha passou extremamente bem pela operação, dando a todos uma esperança de recuperação. Mas essa esperança durou pouco e logo foi ficando claro que não havia chance para ela.

 

Mesmo na situação crítica em que se encontrava, Natasha não perdeu aquele seu olhar de confiança em nós, nem deixou de externar a sua satisfação em nos ver, agitando o seu cotoquinho de rabo. Tampouco perdeu a sua noção de higiene. Quando queria fazer xixi, latia pedindo ajuda. Levada para o seu banheiro e ficando suspensa pelas nossas mãos, ainda encontrava forças para abrir e levantar as pernas traseiras de modo a não se sujar. Quando seus chamados não eram ouvidos e acabava por molhar a sua cama, não parava de latir enquanto o forro não fosse trocado.

 

Essa parte final da sua vida seguiu um processo rápido e irreversível. Seu apetite, marca registrada de toda a sua existência, foi desaparecendo. Ela foi definhando. Só conseguia manter seu olhar tranqüilo, que continuava a transmitir bondade e confiança. Até que num dado momento Natasha partiu. Nossa dor foi imensa. Ficamos também com uma terrível dúvida: a operação teria sido a decisão mais adequada? Ela poderia ter se recuperado naturalmente se não tivesse sido submetida à cirurgia? Só Deus saberia responder corretamente essas questões. Uma certeza que temos é que fizemos o que julgávamos ser o melhor para ela, pois não seria justo que ela permanecesse sem a capacidade de se mover. Temos também a certeza de que a Natasha foi a cachorrinha mais feliz deste mundo-cão. Apenas isso nos conforta.

 

Todos nós sofremos muito com a sua morte. Percebemos que uma relação tão profunda entre humanos e cães apresenta um ponto fraco, impossível de transpor: a diferença de perspectiva temporal de vida. Dificilmente um cão chega aos quinze anos de idade. Por isso, com certeza, alguém vai sofrer muito, em algum momento. Entretanto, a experiência que vivi, me permite dizer que o exemplo de caráter, lealdade, dedicação, bondade, coragem, amor ilimitado e de tantas outras qualidades que um cachorro transmite a nós, humanos, supera amplamente esse inconveniente. Pensando bem, que inconveniente? Se alguém pode sentir tão intensamente a morte do seu cachorro é porque sua alma captou os ensinamentos recebidos desse seu amigo e está mais próxima do Criador.

 

Assim partiu a Natasha querida, minha filha. O brilho que ainda restava nos seus olhos se apagou. Meu coração, no entanto insiste em me dizer que, na verdade, esse brilho apenas mudou de lugar e restabeleceu seu esplendor para toda a eternidade. Por isso, sempre que posso, fixo os meus olhos no céu, pois sei que vou acabar identificando uma nova e brilhante estrela cintilando no firmamento, sempre ao alcance da minha vista, até o final dos meus dias. Aí então, sei que vamos de novo nos encontrar.

 

 

P.S.: Esta é uma sincera homenagem a Natasha, que durante toda a sua existência (☼ 18/10/1991 - † 03/05/2005) só trouxe alegrias e deu bons exemplos a todos os que tiveram o privilégio de conhecê-la, para que a sua passagem pela Terra tenha um registro perene.

PITÔ (1ª parte)

Minha mulher e eu sempre adoramos a vida no campo. A conseqüência dessa preferência foi a compra de uma pequena fazenda chamada Caieira, que pertencia à minha família desde 1921, quando meu avô a adquiriu. Com a sua morte, a Caieira foi sendo progressivamente abandonada, até ficar cerca de 20 anos praticamente na mão de posseiros. Quando a comprei, estava cheio de sonhos e planejando realizar vários projetos. Por sorte, a minha mulher também mergulhou de cabeça nesse sonho, como se tivesse guardadas no fundo da sua alma as mesmas lembranças da infância que o lugar me trazia.

 

Assim começou a nossa aventura rural. Contratamos empregados, alguns dos quais tinham nascido e trabalhado na antiga Caieira. Restauramos a sede, refizemos as cercas, limpamos os pastos e imaginamos vários projetos. Logo, comecei a entender que as propriedades rurais foram batizadas de fazenda porque nelas você está sempre fazendo e elas nunca ficam prontas. Vencida a fase inicial de ocupação, passamos à etapa de implantação dos nossos usos e costumes. Simples de falar e difícil de conseguir. Sobretudo num lugar que ficou abandonado por 20 anos. Com muita paciência e muitos ataques de irritação, fomos conseguindo colocar as coisas do nosso jeito. Ou quase. Acabamos constatando que o quase, no campo, é algo permanente. Ao mesmo tempo em que íamos acumulando reveses no nosso lado empreendedor, fomos desenvolvendo uma tolerância que nos permitiu curtir, e curtir muito, a nossa Caieira. Fizemos dela um cantinho agradável e acolhedor, que nos possibilitou reunir parentes e amigos inúmeras vezes, fortalecendo laços, reavivando momentos importantes das nossas vidas, fazendo emergir emoções, rindo, chorando. Aos poucos e sem sentir, fomos transformando a fazenda numa casa de campo. Não deixa de ser um desperdício, mas valeu. Vamos ter muito que contar.

 

Desde a nossa chegada à Caieira, e satisfazendo um desejo da minha mulher, fomos comprando ou ganhando alguns bichos para alegrar o lugar. Nesse processo, minha mulher foi aperfeiçoando o dom que Deus lhe deu, de amar e ser amada pelos animais. Assim, além dos cachorros que naturalmente, e por motivos óbvios, foram os primeiros a chegar, vários outros animais foram paulatinamente ocupando seus espaços. Ganhamos um casal de carneiros, o Lula e a Erundina. Sua missão era aparar a grama. Acabaram perdendo o emprego quando nos convencemos de que eles gostavam mesmo era de laranjeiras, limoeiros, goiabeiras e de muitos outros tipos de planta. Menos de grama. Compramos um papagaio, que logo ganhou o apelido de Metaleiro, porque possuía um dedo duro em um de seus pés e, quando levantava esse pé, os dedos que tinham movimento ficavam abertos em “v”, como o sinal característico usado pelos metaleiros. Havia também dois cágados chamados Fittipaldi e Barrichello, por motivos que não necessitam ser explicados, nem precisam ser lógicos. Ganhamos ainda uma arara, cujo nome era Arara mesmo. Era uma artista mal aproveitada, que adorava dar espetáculos para os visitantes e tinha como um dos principais números do seu show, falar ou gritar a palavra arara de todas as formas e entonações que ela havia ouvido ao longo da sua vida. E o mais interessante é que ela adorava observar a reação que o seu show provocava nas pessoas. Quando sentia que estava realmente agradando, gritava “Êba! “ e se pendurava pelo bico na tela do seu viveiro, ao mesmo tempo em que soltava as pernas. Em seguida, voltava para o poleiro para apreciar o efeito desse seu novo número. Possuíamos ainda um tucano chamado Franco Montoro e um viveiro repleto de agapornes e calopsitas. Além desses, tínhamos todos os animais que normalmente habitam as propriedades rurais.

 

Mas, de todos os bichos que existiam na Caieira ou que passaram por lá, houve um que merece um capítulo especial: o Pitô. Pitô era um macaco-prego que um tio trouxe de presente. Como todo macaco-prego, era muito inteligente e temperamental. Ou simpatizava com alguma pessoa ou a odiava para sempre. Com a minha mulher, o amor foi instantâneo. A primeira vez que vi o Pitô, ele ainda estava dentro da gaiola que foi usada para transportá-lo até a Caieira. De cara, senti que não estava agradando e, por isso, ele foi atendido e tratado pela minha mulher. A gratidão do Pitô, devido à forma como foi recebido, durou todo o tempo em que ele ficou na fazenda.  (continua...)

PITÔ (2ª parte)

A partir do instante em que o instalamos adequadamente, ele iniciou uma análise detalhada do seu espaço e, em seguida, começou a aprontar todas. Sua residência oficial era composta de uma confortável casa de madeira onde podia dormir, se alimentar em segurança e se proteger da chuva, do vento, do sol e das eventuais visitas indesejáveis.  A casa ficava a cerca de 2 metros acima do chão e bem na sua frente passava um cano grosso, ligando duas árvores distantes uns 6 metros uma da outra. Por esse cano o Pitô podia circular, preso pela cintura por uma correia de couro, que por sua vez ficava ligada a uma corrente leve, terminada na outra extremidade por um anel metálico que envolvia o cano. Assim, ele podia ir de uma árvore à outra e ao chão. O suficiente para fazer uma tremenda bagunça. Às vezes a sua corrente ia ficando embolada, diminuindo seu raio de ação. Quando se sentia meio preso, ele não se apertava. Simplesmente pegava a ponta da corrente que ficava próxima ao seu corpo e ia fazendo o caminho inverso até desatar completamente os nós e ficar livre de novo. Vendo isso, tive a certeza de que ele era mais inteligente que alguns dos empregados que tive por lá. Do seu posto de observação, podia acompanhar a maioria dos movimentos na casa e particularmente o que acontecia na copa, onde a gente tomava o café da manhã. Pitô preparou então uma coleção de caretas e da varanda da sua casa passou a exibir seus dotes histriônicos sempre que um grupo se sentava à mesa, para chamar a atenção para si. Que eu saiba, ele nunca deixou de ter sucesso total nessa atividade.

 

Cedo, Pitô revelou-se um tremendo fujão. A sua primeira experiência nesse sentido terminou mal. Ele seguiu por uma estrada interna da fazenda, em direção ao curral, que ficava a uns 500 metros da sede. Mais ou menos na metade do caminho, resolveu subir num poste da linha de transmissão que levava energia elétrica ao curral e às instalações próximas. Feito isso, ele passou a andar sobre um dos fios. Ia tudo bem até o momento em que resolveu apoiar o rabo no outro fio, para se equilibrar melhor. Tomou um tremendo choque e caiu no chão, desmaiado. Foi a sua primeira e última aventura num lugar tão distante da sua base de operações. Foi recolhido pelo Leleco, nosso caseiro, e devolvido ao lar. Nasceu daí uma nova amizade, rara em se tratando de amigo do sexo masculino, pois em geral os que tentavam uma aproximação, eram recebidos com ameaças de mordidas ou brindados com as próprias. E é bom salientar que os seus dentes eram finos e afiados como agulhas.

 

Depois dessa excursão mal sucedida, as suas aventuras passaram a focalizar principalmente a sede da Caieira, para nossa preocupação. Um dia, eu havia acabado de me instalar num banco do jardim para ler um livro, quando comecei a ouvir um barulho de pratos quebrando, aparentemente na cozinha. Até o terceiro prato não liguei, mas como a quebradeira estava continuando, resolvi verificar o que estava acontecendo. Chegando lá, descobri que o problema não era na cozinha, mas sim no quintal, logo atrás. Fui ver. O Pitô estava sentado em cima do varal de secar roupas, com uma pilha de pratos que havia furtado na cozinha e, calmamente, ia lançando um a um no chão. Ao me ver, ele pulou do varal para o telhado, para fugir, não sem antes jogar de uma só vez o restante dos pratos no chão.

 

Pegá-lo e conseguir colocá-lo de novo nos seus domínios era uma tarefa das mais árduas e arriscadas, devido à sua sadia dentadura. Só quem não corria esse risco era a minha mulher, pois ele sempre atendia ao seu chamado e vinha para o seu colo como se nada tivesse acontecido. Também, com toda boa vontade, concordava em ser transferido de volta para a sua casa. De vez em quando a minha mulher saía para passear com o Pitô preso à sua corrente, como a gente normalmente faz com um cachorro. Num desses passeios, ela  passou ao lado do canil e os nossos dois pastores puseram-se a latir com toda força e irritação. Sem fazer nenhum movimento brusco, Pitô a escalou, sentando-se no seu ombro, do lado oposto ao do canil. Aí ficou praticamente imóvel olhando distraidamente para o morro à sua frente. Sua providência posterior foi cortar definitivamente esse trajeto do seu programa.   (continua...)

PITÔ (3ª parte)

Num domingo de manhã, encontrei o Pitô no chão, ao lado da sua casa, num estado de muita agitação, jogando pedras numas folhas largas que estavam ali, depois de uma poda que a minha mulher havia feito. Achei aquilo muito estranho e fui verificar, pois podia ser uma cobra. Fui removendo as folhas e acabei encontrando um sapo, paralisado de medo. Noutra ocasião, resolvemos fazer uma gozação com o Pitô. Minha mulher o acostumara a comer ovo cru, que ela lhe presenteava freqüentemente. Pitô pegava o ovo e o batia com jeito em alguma superfície dura, amassando um pouco a casca. Com a sua unha, fazia um pequeno furo no pedaço amassado da casca e bebia o conteúdo do ovo. Nossa gozação consistiu em dar a ele um ovo de plástico, desses usados para cerzir meias. Ao pegar o ovo, Pitô logo sentiu a diferença de peso. Levou-o ao ouvido, deu chacoalhada para verificar se tinha algo dentro e o lançou longe, provando mais uma vez que não era fácil tapeá-lo.

 

À medida que o tempo ia passando, maior ia ficando sua fixação na casa-sede da Caieira. Uma noite eu estava na sala, sentado num sofá, assistindo televisão. De repente, comecei a sentir a sensação de que estava sendo observado por alguém. Não entendia como isso podia estar acontecendo, até que num dado momento percebi que através de um pequeno buraco existente num vitrô que ficava na parede atrás da televisão um olho me espreitava atentamente. Senti um ligeiro calafrio, mas logo me tranqüilizei ao ver através do vitrô a sombra do corpo do Pitô. Quando ele se sentiu flagrado, pulou imediatamente para o telhado.

 

Nas fugas, uma das suas distrações preferidas era percorrer o beiral do telhado da nossa casa, comendo insetos e particularmente as aranhas que ia encontrando. Num desses tours, ele jantou o Osvaldo Aranha, antigo morador da nossa varanda, que com as suas teias havia causado grandes baixas no exército de bruxas e mariposas que nos visitava todas as noites. Outra de suas travessuras era roubar coisas dentro de casa e levá-las para o telhado. Nessas ocasiões, fazia questão de que o víssemos lá em cima com o produto do seu roubo. Não havia jeito de fazê-lo devolver os objetos. A solução depois de conseguir prendê-lo, era colocar uma escada e subir no telhado para recuperar o que ainda estivesse inteiro.

 

O maquiavelismo do Pitô foi crescendo até atingir o ápice: destelhar um razoável pedaço da casa. A área atingida chegava a alcançar vários metros quadrados. As telhas tiradas, ele jogava no jardim, danificando as plantas. Agüentei bastante esse novo tipo de provocação. Pitô destelhou a casa pelo menos umas quatro vezes. Aí, cheguei à conclusão de que não dava mais. Comecei então um difícil e demorado processo de negociação com a minha mulher, para nos desfazermos dele. Foi quando ele me deu a grande chance: destelhou a casa mais uma vez. Entrei então com um argumento definitivo e ameaçador: ou dávamos o Pitô ou eu iria matá-lo.

 

Em poucos dias consegui um interessado. Ele era dono de uma madeireira e tinha uma cliente que possuía uma fêmea de macaco-prego e queria arranjar um marido para a sua macaca. A doação foi feita, mesmo com os protestos da minha mulher, mas para meu alívio, pois obviamente não pretendia sacrifica-lo. Alguns meses depois precisei comprar uns caibros e fui até a madeireira. Pedi notícias do Pitô e fui informado de que estava tudo bem e que ele seria pai brevemente. Só que havia ocorrido um probleminha na fazenda da sua cliente: o Pitô destelhara quase a metade da casa!


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