REFLEXÕES (parte 1/2)
Pacheco estava sentado numa cadeira no jardim da sua casa, observando o movimento dos aviões no aeroporto, bem próximo dali. Ainda estava tentando se acostumar à nova realidade, sua condição de aposentado. Meu Deus, como a vida passa rápido! Outro dia mesmo ele estava indo para o Rio para estudar, e já se foram quase cinqüenta anos. Agora, quando acorda pela manhã, fica pensando como vai preencher as horas do dia. Acha que a vida está meio vazia. Mas já foi diferente. Bem diferente. Houve época em que não tinha tempo para nada. Vivia mergulhado no trabalho. Um dia, tomou um susto ao perceber que seu filho já era um homem feito.
Da cadeira em que estava sentado, podia ouvir muito bem a música que vinha da televisão. A seqüência do canal da TV por assinatura estava ótima para um cara da sua geração. A Time Goes By, Tema de Lara, Begin the Beguine, What the World Needs Now is Love... Que legal! Começou a se lembrar dos bailes, tão comuns na sua juventude. Não perdia um. Sem perceber foi se afastando da realidade, viajando no tempo. Seu pensamento foi se fixar nos seus primeiros dias no Rio, para onde foi para fazer o cursinho vestibular para Engenharia. Nessa época, passou a morar na Tijuca, na casa de uma tia. Todo dia pegava o bonde 66 para ir e voltar do cursinho, que ficava no Castelo. Logo veio à sua cabeça o pregão do jornaleiro que toda tarde pulava no estribo do bonde, na rua Sete de Setembro, e anunciava: “Olha o Globo, Diário, Notícia, Tribuna e Última Hora”. Lembrou-se também do caso do homem gordo, de terno que um dia estava sentado na extremidade de um dos bancos do bonde, junto ao balaústre, lendo o seu jornal, quando saltou da rua para o estribo um sujeito com um charuto na boca. Na manobra, seu charuto, que estava aceso, bateu no balaústre e caiu dentro do bolso do paletó do gordo. O pingente não teve um momento de hesitação. Saltou do bonde imediatamente, deixando que o gordo descobrisse sozinho o incêndio que estava por começar no seu bolso.
Apesar de ser carioca, ele fora criado no interior do estado, e aquela era a sua primeira experiência de vida no Rio. Vibrava com a sua condição de vestibulando e admirava a maioria dos professores do cursinho, todos com larga experiência em preparar a moçada para enfrentar a enorme barreira que os jovens tinham que transpor para chegar à universidade. Naquela época era bem pior do que hoje em dia, pois havia menos opções. Lembrou-se do prof. Furtado, que lecionava álgebra e parecia adivinhar quando alguém ia ter dúvida sobre algum ponto da matéria. Ele interrompia a seqüência do que estava explicando, ia até o outro lado do quadro e detalhava a suposta dúvida como se fosse um parêntesis, esclarecendo tudo sobre o assunto. Depois voltava ao ponto em que havia parado, dando seqüência à sua explicação. Quando chegava ao fim, tudo parecia muito simples e fácil. Ele era um verdadeiro mestre na arte de ensinar. Outro bom professor, mas sem a simpatia e o bom humor do prof. Furtado, era o José Luís, de geometria descritiva, conhecido como Cota Nula, devido à sua baixa estatura. Como ele detestava o apelido, logo um grupo de alunos passou a riscar no quadro uma linha horizontal como se fosse a linha de terra, com a anotação “zero”. Acima dela colocavam as cotas +1, +2, +3...+n e, abaixo, –1, -2, -3 ... –n. O homem entrava na sala para dar a sua aula, percebia a gozação, mas o máximo que conseguia era apagar o quadro até o nível da linha de terra. Chegava a soltar fumaça. Cedo, a turma também descobriu um aluno que além de sofrer de claustrofobia, tinha uma outra mania bem esquisita. Ao passar pelo corredor entre as salas de aula, ele ia a cada um dos interruptores de luz e dava dois cliques, apagando e reacendo as luzes. A primeira maldade com ele passou a ser fechar as janelas. Assim que percebia isso, ele, que ia sempre de terno às aulas, começava a afrouxar a gravata e a se abanar. Quando a aula acabava, o pessoal corria para o corredor e cada um se encostava num interruptor. Ele saía da sala e vinha esfregando a mão na parede em direção ao primeiro interruptor. Estando o mesmo obstruído, tirava a mão somente o suficiente para ultrapassar o obstáculo, e voltava a raspar a parede em direção ao segundo interruptor, e assim sucessivamente. Todos os que se faziam de obstáculo ficavam com um ar distraído, como se a sua presença ali fosse absoluta casualidade. Uma tremenda crueldade!
Aquele tempo difícil, mas muito bom, passou rápido. Logo Pacheco estava cursando Engenharia e havia se mudado para uma república de estudantes na rua Teresina, em Santa Teresa. O bonde agora era o Paula Mattos. A república era um velho casarão mal conservado, administrado pela dona Carmela, uma paciente senhora de uns sessenta anos, e seu filho Carlinhos, um cara boa praça. Ali viviam uns quinze rapazes, quase todos estudantes. Cedo, pela manhã, a maior parte da turma seguia para as aulas. Era a hora de trabalho intenso para a dona Carmela, mas também a parte mais tranqüila do seu dia. O rolo começava no início da noite, quando o pessoal voltava, e às vezes ia até a manhã seguinte.
Quando ele chegou, existiam dois grupos na república, juntando a moçada que de alguma forma encontrava interesses afins, mesmo fazendo cursos completamente diferentes, em escolas também diferentes. Além dos dois grupos, havia dois rapazes que, por temperamento, mantinham-se distantes do resto do pessoal. Não existia hostilidade entre as tribos assim formadas, mas sobrava muita gozação. Claro que os dois que se isolavam logo se tornaram as maiores vítimas das duas turmas. Um ganhou rapidamente o apelido de Incompetente, porque estava fazendo o cursinho vestibular para medicina pela terceira vez. O outro, um caladão que também era veterano em vestibulares, mas sempre estava pronto a fazer algum favor, especialmente para a dona Carmela, ficou conhecido como Burro Dinâmico. Como não gostou da brincadeira, afastou-se ainda mais do grupo e acabou se mudando para outra república tempos depois. (continua...)