NATASHA QUERIDA (1/3)

Esta é a história de uma relação intensa, que provocou uma revisão profunda nos meus valores. Durou quatorze anos. Até agora ainda não consegui assimilar o tremendo impacto que me causou a morte da minha Natasha querida, uma dor cuja grandeza ultrapassou todas as previsões que eu tinha feito.
Sua história provavelmente é semelhante à de muitos outros cachorros. Aqueles que já perderam um desses parceiros de todas as horas, leais e amigos sinceros, devem saber exatamente do que estou falando. Como eu, devem ter compreendido que essa convivência foi uma oportunidade que tiveram de praticar um poderoso exercício de crescimento interior. Esses companheiros são, na verdade, mestres em tempo integral, com ilimitada capacidade de nos transmitir sólidas lições de vida. Basta a gente prestar atenção.
Até nossas vidas se encontrarem, eu jamais poderia supor que um amor tão forte dirigido a um animalzinho pudesse se instalar de forma tão definitiva dentro de mim. Pode parecer ridículo, mas não me importo. Este amor vem de dentro de mim, e não tenho vergonha de confessá-lo. Natasha era uma linda cadelinha poodle, de pelo branco achampanhado, extremamente inteligente, carinhosa, especial. Tão especial que em pouco tempo passou a ser considerada como um membro da minha família, passando assim a ter pai, mãe e irmão humanos. E não há dúvida de que ela também se sentia assim, como filha e irmã. Além disso, ela se sentia nossa guardiã e protetora, não lhe importando o seu tamanho. Essa era a sua missão.
Tudo começou quando minha mulher passou a demonstrar o desejo de possuir um cachorro de uma raça que pudesse viver dentro de casa e que lhe fizesse companhia. Coloquei-me veementemente contra essa idéia, pois só conseguia ver inconveniências nisso. Foram alguns meses de tentativas, sempre com minha forte oposição. Por fim, sua teimosia venceu e ela acabou levando para casa a Natasha, então um filhote com cerca de dois meses de idade. Desde o primeiro instante, com seu temperamento alegre e carinhoso, Natasha começou a abrir o seu espaço na sua nova residência e no coração de todos. Particularmente eu, que tanto reagira à sua chegada, fui diminuindo a resistência e começando a me interessar por ela.
Em pouco tempo, e com a orientação da sua protetora, Natasha passou a me esperar na porta do apartamento todo fim de tarde, quando eu chegava do trabalho. Sempre limpinha, muito bem escovada e cheia de charme, ela pulava nas minhas pernas e gritava de alegria tão logo eu abria a porta. Natasha não dava a vez para ninguém. O meu primeiro carinho tinha que ser para ela. Para isso usava de todos os artifícios. Abanava com vigor seu cotoquinho de rabo, deitava-se no chão de barriga para cima, faiscava seus olhos de maneira irresistível.
Essa atitude sistemática da Natasha foi me conquistando inteiramente. Sem que eu me desse conta, passei a entrar furtivamente em casa na volta do trabalho, me esconder atrás de algum móvel e começar a imitar cabritos, bois e outros animais, para chamar a sua atenção. Ficava escondido assim até ser encontrado por ela. Quando isso acontecia, começava um festival de carinhos de ambas as partes. Num instante eu já a estava chamando de filha.
Natasha logo dominava todos os detalhes do seu território, seja no apartamento em que passou a morar quando se incorporou à família, seja nas demais residências que tivemos ao longo da sua existência. Tinha o seu banheiro particular, sempre na área de serviço e o seu local sagrado para dormir durante a noite: a nossa cama. Disso ela não abria mão. Não havia chance de outra alternativa, sob pena de ninguém conseguir dormir na casa. Durante o dia, deitava-se freqüentemente num ponto estratégico, do qual podia controlar a maior parte dos movimentos da casa. Dali observava tudo, mantendo-se sempre muito bem informada.
Desde que ela chegou, deixou claro que era boa de boca. Tinha muito apetite e nunca recusava uma refeição. Seu prato básico era ração balanceada, mas seu gosto era bastante eclético, passando por comida caseira, biscoitos, frutas, sorvetes, queijos e por aí vai. Essa característica deu-lhe uma saúde invejável e exigia permanente atenção para evitar exageros que poderiam lhe trazer transtornos, pois o fígado canino não costuma suportar excessos. (continua...)
















