PITÔ (1ª parte)

Minha mulher e eu sempre adoramos a vida no campo. A conseqüência dessa preferência foi a compra de uma pequena fazenda chamada Caieira, que pertencia à minha família desde 1921, quando meu avô a adquiriu. Com a sua morte, a Caieira foi sendo progressivamente abandonada, até ficar cerca de 20 anos praticamente na mão de posseiros. Quando a comprei, estava cheio de sonhos e planejando realizar vários projetos. Por sorte, a minha mulher também mergulhou de cabeça nesse sonho, como se tivesse guardadas no fundo da sua alma as mesmas lembranças da infância que o lugar me trazia.
Assim começou a nossa aventura rural. Contratamos empregados, alguns dos quais tinham nascido e trabalhado na antiga Caieira. Restauramos a sede, refizemos as cercas, limpamos os pastos e imaginamos vários projetos. Logo, comecei a entender que as propriedades rurais foram batizadas de fazenda porque nelas você está sempre fazendo e elas nunca ficam prontas. Vencida a fase inicial de ocupação, passamos à etapa de implantação dos nossos usos e costumes. Simples de falar e difícil de conseguir. Sobretudo num lugar que ficou abandonado por 20 anos. Com muita paciência e muitos ataques de irritação, fomos conseguindo colocar as coisas do nosso jeito. Ou quase. Acabamos constatando que o quase, no campo, é algo permanente. Ao mesmo tempo em que íamos acumulando reveses no nosso lado empreendedor, fomos desenvolvendo uma tolerância que nos permitiu curtir, e curtir muito, a nossa Caieira. Fizemos dela um cantinho agradável e acolhedor, que nos possibilitou reunir parentes e amigos inúmeras vezes, fortalecendo laços, reavivando momentos importantes das nossas vidas, fazendo emergir emoções, rindo, chorando. Aos poucos e sem sentir, fomos transformando a fazenda numa casa de campo. Não deixa de ser um desperdício, mas valeu. Vamos ter muito que contar.
Desde a nossa chegada à Caieira, e satisfazendo um desejo da minha mulher, fomos comprando ou ganhando alguns bichos para alegrar o lugar. Nesse processo, minha mulher foi aperfeiçoando o dom que Deus lhe deu, de amar e ser amada pelos animais. Assim, além dos cachorros que naturalmente, e por motivos óbvios, foram os primeiros a chegar, vários outros animais foram paulatinamente ocupando seus espaços. Ganhamos um casal de carneiros, o Lula e a Erundina. Sua missão era aparar a grama. Acabaram perdendo o emprego quando nos convencemos de que eles gostavam mesmo era de laranjeiras, limoeiros, goiabeiras e de muitos outros tipos de planta. Menos de grama. Compramos um papagaio, que logo ganhou o apelido de Metaleiro, porque possuía um dedo duro em um de seus pés e, quando levantava esse pé, os dedos que tinham movimento ficavam abertos em “v”, como o sinal característico usado pelos metaleiros. Havia também dois cágados chamados Fittipaldi e Barrichello, por motivos que não necessitam ser explicados, nem precisam ser lógicos. Ganhamos ainda uma arara, cujo nome era Arara mesmo. Era uma artista mal aproveitada, que adorava dar espetáculos para os visitantes e tinha como um dos principais números do seu show, falar ou gritar a palavra arara de todas as formas e entonações que ela havia ouvido ao longo da sua vida. E o mais interessante é que ela adorava observar a reação que o seu show provocava nas pessoas. Quando sentia que estava realmente agradando, gritava “Êba! “ e se pendurava pelo bico na tela do seu viveiro, ao mesmo tempo em que soltava as pernas. Em seguida, voltava para o poleiro para apreciar o efeito desse seu novo número. Possuíamos ainda um tucano chamado Franco Montoro e um viveiro repleto de agapornes e calopsitas. Além desses, tínhamos todos os animais que normalmente habitam as propriedades rurais.
Mas, de todos os bichos que existiam na Caieira ou que passaram por lá, houve um que merece um capítulo especial: o Pitô. Pitô era um macaco-prego que um tio trouxe de presente. Como todo macaco-prego, era muito inteligente e temperamental. Ou simpatizava com alguma pessoa ou a odiava para sempre. Com a minha mulher, o amor foi instantâneo. A primeira vez que vi o Pitô, ele ainda estava dentro da gaiola que foi usada para transportá-lo até a Caieira. De cara, senti que não estava agradando e, por isso, ele foi atendido e tratado pela minha mulher. A gratidão do Pitô, devido à forma como foi recebido, durou todo o tempo em que ele ficou na fazenda. (continua...)












